Fratura Le Fort tipo I na tomografia: como identificar os principais achados no trauma de face

postado em: 08/10/26

As fraturas Le Fort representam padrões de fraturas complexas do esqueleto facial e seu reconhecimento é fundamental na avaliação tomográfica de pacientes com trauma de face.

Na prática radiológica, identificar esses padrões ajuda a organizar a interpretação dos exames, descrever adequadamente as lesões e comunicar informações relevantes à equipe assistencial.

Neste artigo, vamos discutir os principais achados da fratura Le Fort tipo I na tomografia computadorizada (TC), utilizando um caso real que também apresenta uma fratura trimalar associada.

O que é uma fratura Le Fort tipo I?

A classificação de Le Fort descreve três padrões clássicos de fraturas do terço médio da face, caracterizados por diferentes trajetos de separação óssea.

Na fratura Le Fort tipo I, ocorre uma separação horizontal da porção inferior da maxila em relação ao restante do esqueleto facial, produzindo o padrão conhecido como palato flutuante.

O trajeto da fratura envolve tipicamente as paredes dos seios maxilares, a região inferior do septo nasal e os processos pterigoides.

Embora os padrões clássicos sejam úteis para a interpretação, os traumatismos de alta energia frequentemente produzem combinações de fraturas e trajetos assimétricos, exigindo avaliação cuidadosa de cada estrutura.

Como identificar a fratura Le Fort tipo I na tomografia?

A tomografia computadorizada, com avaliação em janela óssea e reconstruções multiplanares, permite acompanhar os trajetos das fraturas e reconhecer o padrão de separação do segmento maxilar inferior.

1. Avalie os processos pterigoides

Um dos pontos fundamentais na investigação das fraturas Le Fort é a avaliação dos processos pterigoides.

As fraturas dos processos pterigoides fazem parte dos padrões clássicos de Le Fort. Sua identificação deve motivar uma análise sistemática do restante do esqueleto facial para determinar o trajeto e a extensão das lesões.

No caso apresentado no vídeo, observamos fraturas dos processos pterigoides bilateralmente, um achado fundamental para reconhecer o padrão Le Fort.

Entretanto, a presença isolada de fraturas pterigoideas não é suficiente para estabelecer o diagnóstico: é necessário demonstrar a continuidade do padrão de fratura nas demais estruturas envolvidas.

2. Identifique o trajeto horizontal da fratura

Na fratura Le Fort tipo I, os traços de fratura apresentam distribuição predominantemente horizontal, separando a porção inferior da maxila do restante da face.

Na TC, devemos procurar descontinuidades ósseas envolvendo:

  • Paredes dos seios maxilares;
  • Porção inferior do septo nasal;
  • Região maxilar inferior;
  • Processos pterigoides.

No caso discutido, os traços apresentam alturas ligeiramente diferentes entre os lados, mas é possível acompanhar sua continuidade ao longo das estruturas ósseas.

Essa avaliação é especialmente importante em traumatismos complexos, nos quais os trajetos nem sempre reproduzem perfeitamente o padrão clássico descrito na literatura.

3. Utilize as reconstruções coronais

As reconstruções no plano coronal são particularmente úteis para demonstrar o trajeto horizontal da fratura Le Fort tipo I.

Ao percorrer os cortes da região anterior para a posterior, podemos acompanhar as linhas de fratura pelas paredes dos seios maxilares até os processos pterigoides.

Essa abordagem facilita a compreensão espacial da lesão e a identificação da separação do segmento maxilar inferior.

4. Alinhe corretamente os planos com MPR

Antes de analisar os trajetos das fraturas, é importante verificar o alinhamento das imagens.

Em pacientes politraumatizados, o posicionamento da cabeça durante a aquisição pode produzir cortes oblíquos, dificultando a avaliação da simetria das estruturas.

As reconstruções multiplanares (MPR) permitem corrigir esse desalinhamento e obter planos axial, coronal e sagital mais adequados.

No vídeo, demonstramos como utilizar referências anatômicas, incluindo as órbitas e estruturas da base do crânio, para melhorar o alinhamento das reconstruções.

5. Utilize o MIP como ferramenta complementar

A reconstrução por projeção de intensidade máxima (MIP) pode ajudar a demonstrar a continuidade de determinados trajetos de fratura.

No caso apresentado, utilizamos reconstruções MIP no plano coronal, ajustando a espessura da reconstrução para facilitar a visualização das linhas de fratura.

O MIP deve ser interpretado em conjunto com os cortes convencionais, pois a sobreposição de estruturas pode dificultar a identificação de fraturas sutis.

Fratura Le Fort tipo I associada à fratura trimalar

Traumatismos faciais de alta energia podem produzir múltiplos padrões de fratura simultaneamente.

No caso demonstrado, além da fratura Le Fort tipo I, identificamos uma fratura trimalar à esquerda, envolvendo o complexo zigomático.

A fratura trimalar, também relacionada ao padrão de fratura do complexo zigomático-maxilar, caracteriza-se pelo comprometimento das conexões ósseas que sustentam o zigoma.

Na tomografia apresentada, observamos fraturas envolvendo as paredes do seio maxilar esquerdo, a parede lateral da órbita e o arco zigomático.

A avaliação por reconstruções oblíquas permite demonstrar melhor a separação do fragmento ósseo e compreender a distribuição espacial das lesões.

A identificação desses dois padrões no mesmo exame reforça a importância de uma análise sistemática de todo o esqueleto facial, mesmo quando uma fratura complexa já foi reconhecida.

Vídeo: fratura Le Fort tipo I e fratura trimalar na prática

Na aula abaixo, analisamos uma TC de face de um paciente adulto jovem após trauma, demonstrando o passo a passo da interpretação.

Você poderá acompanhar o alinhamento das reconstruções multiplanares, a identificação das fraturas dos processos pterigoides, o trajeto da fratura Le Fort tipo I e os achados da fratura trimalar esquerda.

O que não pode faltar no laudo?

Ao identificar um padrão de fratura Le Fort tipo I, o laudo radiológico deve descrever de forma objetiva a distribuição das lesões e as estruturas comprometidas.

Entre os pontos importantes estão:

  • Identificação do padrão de fratura Le Fort tipo I;

  • Lateralidade e distribuição dos traços de fratura;

  • Comprometimento dos processos pterigoides;

  • Fraturas das paredes dos seios maxilares e do septo nasal;

  • Deslocamento ou desalinhamento dos fragmentos ósseos, quando presentes;

  • Outras fraturas faciais associadas, incluindo lesões do complexo zigomático-maxilar.

A descrição individualizada das lesões é especialmente relevante quando existem padrões combinados ou assimétricos.

A interpretação do trauma exige mais do que reconhecer uma fratura

Reconhecer os padrões clássicos de Le Fort é um passo importante, mas a interpretação de exames de trauma exige uma abordagem integrada.

É necessário avaliar a extensão das lesões, identificar fraturas associadas e comunicar os achados de maneira clara e útil para a equipe assistencial.

A prática com casos reais e a manipulação das imagens em diferentes planos ajudam a desenvolver esse raciocínio.

Aprofunde sua interpretação de exames de trauma

Quer desenvolver mais agilidade e segurança na interpretação dos exames de trauma?

Nos dias 28 e 29 de novembro de 2026, acontecerá o Hands-on de Radiologia no Trauma | WeRads & InRadiando, presencialmente no INRAD HC-FMUSP, em São Paulo.

Durante dois dias de treinamento prático, três professores participarão juntos de todas as aulas, analisando os mesmos casos e debatendo os achados sob diferentes perspectivas. Cada aluno terá sua própria estação de trabalho individual para manipular os exames, acompanhar as discussões, tirar dúvidas e desenvolver seu raciocínio diagnóstico, desde a identificação das lesões até a elaboração do laudo.

Conheça a programação e garanta sua vaga:

⚠️Apenas 30 vagas disponíveis.

As inscrições serão confirmadas por ordem de conclusão do pagamento.

📍 INRAD HC-FMUSP — São Paulo/SP
📅 28 e 29 de novembro de 2026
🎓 Curso exclusivo para médicos
✅ Certificado de participação

O WeRads produz conteúdos de educação médica voltados à interpretação de exames de imagem, ao desenvolvimento do raciocínio diagnóstico e à aplicação prática do conhecimento na rotina radiológica.
 

Entre a imagem e a conduta, está a segurança de quem sabe interpretar.